A vassoura de Chiquinho

A vassoura de Chiquinho

A praça tem a igreja do Carmo. O início da escadaria da Santa Rita está nela também. Entre as duas, um beco, beiradeiro dos casarões. Lembra quando do sobrado ainda vinha o cheiro gostoso do restaurante de Dona Lucinha?

Cheia mesmo, a praça ficou na entrega da reforma do prédio da prefeitura. Governador, gravatas e fotógrafos? Como não? Todos passaram por ela. Pedindo voto e sorrisos, cortando fita, discursando ao vento ou arrastando sapatos bem engraxados.
Nela começou muito namoro. De abanar cabeça, de mão dada vigiada até chegar nos beijos por wi-fi. O chão da praça já molhou deveras. Da lágrima de amor partido, da chuva de março e do xixi do cachorro. Até água benta lhe caiu. Secou com o tempo e o tempo, virou poeira.

Moço, poeira vira o todo dia. Poeira é história picadinha em miudeza. Não se entende um grão sozinho, mas se acumula é como o abecedário se arrumando em palavra.

Todo serrano tem o seu punhado de poeira na praça João Pinheiro.
Quisera todo mundo pudesse acordar, ir à praça, levar um sorriso no rosto e dizer “bom dia” para o Chiquinho.

Ele não varre a praça. Chiquinho é professor. Faz da vassoura um quadro negro. Ajunta poeira e assim, escreve todo dia a nossa história.